Caso de pisoteados em Paraisópolis lembra mortes em baile funk de Guarulhos

Caso de pisoteados em Paraisópolis lembra mortes em baile funk de Guarulhos

Nove pessoas morreram pisoteadas e sete ficaram feridas após um tumulto em um baile funk na comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, na madrugada de domingo, 1º.  Policiais militares perseguiam dois suspeitos em uma motocicleta quando entraram no local onde ocorria a festa, com cerca de cinco mil pessoas, segundo a corporação.

As identidades das vítimas – uma mulher, sete homens e um adolescente de 14 anos – ainda não foram divulgadas. A polícia diz que não houve disparo de arma de fogo pelos policiais. O  caso relembra mortes ocorridas em Guarulhos em 2018.  

Em novembro do ano passado, uma ação policial em um baile funk em Guarulhos, também terminou com tumulto e três mortos. Segundo testemunhas, a confusão teve início quando Polícia Militar (PM) jogou bombas e spray de pimenta nos participantes da festa em um local conhecido como Vermelhão, na região dos Pimentas.  No local, morreram pisoteados Marcelo do Nascimento Maria, de 34 anos, Micaela Maria de Lima Lira, de 27 anos, e Ricardo Pereira da Silva de 21 anos. 

À época, a PM instaurou inquérito policial-militar para apurar todas as circunstâncias dos fatos e verificar se há conexão entre as mortes e uma tentativa de abordagem dos agentes de segurança. Procurada neste domingo, a Secretaria de Segurança Pública disse que somente seria possível informar se houve conclusão dessa apuração na segunda-feira.  

 Em Paraísópolis  

Ainda segundo a versão oficial, havia seis motocicletas da PM estacionadas na altura da Avenida Hebe Camargo, na zona sul, para reforçar o patrulhamento da região por causa do baile funk. Por volta das cinco horas da manhã, passou pelo local uma outra moto com dois suspeitos, que dispararam contra os agentes de segurança e fugiram em direção a Paraisópolis. Os policiais, então, perseguiram a dupla, de acordo com o registro policial.  

Ao chegar à comunidade, os policiais afirmam que teve início o tumulto e os suspeitos se esconderam na multidão. Isso causou pânico e fez com que participantes da festa tropeçassem e se machucassem gravemente.

Os agentes de segurança dizem ter sido atacados por garrafas e pedras e pediram reforço da Força Tática para deixar o local. A corporação admite ter usado munição química e balas de borracha durante a confusão. À TV Globo, a mãe de uma das vítimas afirma que teria havido uma emboscada da polícia e violência por parte dos PMs contra moradores. Nas redes sociais, também circulam vídeos de supostas agressões cometidas por agentes de segurança, mas não há confirmação sobre a data e local exatos das gravações. 

 “Eles usaram as pessoas como escudos humanos para tentar impedir a ação da polícia. As pessoas foram na direção (dos policiais) arremessando pedras e garrafas. Houve a necessidade de munição química. Foram quatro granadas, duas de efeito moral e duas de gás lacrimogêneo, além de oito disparos de bala de borracha para dispersar as pessoas que estavam no local colocando a vida dos policiais e dos frequentadores”, diz o porta-voz da PM, o tenente-coronel Emerson Massera. 

Ao todo, 38 policiais participaram da ação. “Não houve tentativa de dispersar toda aquela multidão, tanto que o baile permaneceu até 10 horas. (As pessoas) não foram encurraladas, não havia objetivo de encurralar. Uma pessoa tropeçou e caiu. Outras estavam tentando sair e pisotearam.

 Ele afirma que a investigação ainda vai apontar se houve falhas na ação. Segundo ele, vídeos reunidos pela corporação ainda serão analisados, durante o inquérito policial-militar, para apontar se as gravações realmente se referem a esse baile funk e se houve excessos.

Algumas imagens, de acordo com Massera, “sugerem abusos e ação desproporcional por parte da polícia”, mas ainda não é possível apontar responsabilidades. “O rigor na apuração vai responsabilizar quem cometeu algum excesso, quem cometeu algum abuso.

”  Polícia Civil e Ouvidoria também vão investigar mortes

A Polícia Civil e a Ouvidoria das Polícias do Estado de São Paulo informaram que também vão apurar as circunstâncias dessas mortes. O ouvidor das polícias, Benedito Mariano, disse ao Estado que entrou em contato com a Corregedor da PM neste domingo e pediu que a apuração da polícia seja conduzida por esse órgão.  

O 89º DP (Pontal do Morumbi), que abrange Paraisópolis e outros bairros da região, registrou sete homicídios dolosos (intencionais) de janeiro a outubro, além de nove casos de tentativa de homicídio doloso. No começo de novembro, a favela foi alvo de uma megaoperação da PM após a morte de um sargento.  

Em uma rede social, o governador João Doria (PSDB) lamentou o ocorrido e falou que o caso será investigado.   João Doria  @jdoriajrLamento profundamente as mortes ocorridas no baile funk em Paraisópolis nesta noite. Determinei ao Secretário de Segurança Pública, General Campos, apuração rigorosa dos fatos para esclarecer quais foram as circunstâncias e responsabilidades deste triste episódio. 

“Foi uma ação desastrosa da Polícia Militar porque gerou tumulto e mortes na comunidade de Paraisópolis, com a repressão ao baile funk. Todas as circunstâncias precisam ser apuradas, se de fato houve uma perseguição policial contra suspeitos ou se isso foi inventado como um álibi dos policiais”, afirmou o advogado Ariel de Castro Alves, membro do Conselho Estadual de Direitos Humanos (Condepe).

“Mas, mesmo tendo perseguição, não se justifica esse tipo de ação. Deveria ter um planejamento maior, já que ali estavam cinco mil pessoas. A polícia precisa estar preparada para evitar tragédias, desastres, mortes, tumultos, como esse que ocorreu em Paraisópolis.

” A Secretaria Municipal da Saúde, por meio da Autarquia Hospitalar Municipal, informou que 10 pessoas, que estavam nesta ocorrência, deram entrada na Unidade de Pronto Atendimento e no Pronto Socorro do Hospital do Campo Limpo.

Uma permanece sendo atendida. Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2016, Paraisópolis tem cerca de 100 mil habitantes e é uma das maiores favelas do País.

A comunidade fica no distrito da Vila Andrade e é vizinha do Morumbi, ambos bairros de classe média alta na zona sul paulistana. O tenente-coronel Emerson Massera, porta-voz da PM, afirmou ainda que o episódio reforça a necessidade de repensar a realização de festas de grande porte em áreas sem estrutura adequada ou rotas de fuga. 

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